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Paisagista contumaz

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Quando o homem chega a um lugar invariavelmente imprime a ele sua marca. Nada o impede de erguer suas bandeiras e símbolos quando se encontra no topo da cadeia de poder entre os seres que se movimentam. Paisagens naturais compostas por tempos geológicos passam a ostentar, assim, de um momento para outro, marcas de entendimento humano forjadas em escala de tempo de alguns milênios e séculos. E a paisagem muda: suas cores, sua estética e, sobretudo, seu funcionamento. Assim, meio sem saber, acostumado à predominância da vontade, ocupa o homem papel impulsivo e contumaz de artista dos territórios, esculpindo novos desenhos à tridimensionalidade enquanto altera profundamente os fluxos de matéria e energia dos espaços geográficos. Porém, paisagens antropomorfizadas não são menos belas que paisagens naturais. Afinal, possui o homem o mesmo DNA de todos os elementos da estratosfera e é fruto do mesmo mundo que habita. Falta ao artista apenas o preparo - quiçá a humildade, para reconhec...

Antenas de luz

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A linha reta da vida enquanto fluxo que não se esgota atua sobre o indivíduo a ponto de torná-lo um autômato. Água e alimento denso para suprir a energia de ossos e tecidos do corpo são primeira necessidade. Encaixar-se no  status quo  da vida em grupo e, antes, saciar as demandas de sexo e sono, completam-lhe o conjunto. Concentrada repetidamente toda energia, o movimento é sempre o mesmo: imerso na autossuficiência de existir o impulso é de respirar, andar, falar, ouvir, processar todo e qualquer estímulo que pelas antenas do corpo chegar ao reduto da mente. Como pano de fundo lá está a caixa de memórias, valioso registro do que deve ou não ser repetido. As evidências mostram, assim, o sentido de manutenção do veículo físico como a mais básica programação da qual viemos equipados. Entretanto, chega o tempo onde se percebe que o aparelho do qual se faz uso é mais sofisticado e aguenta simultaneamente programas mais avançados. É quando passamos a questionar o automat...

Herdeiro plasmador

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Vamos plasmando coisas pelo caminho. De todos os tipos, em todos os tempos. Pedra, fogo, instrumentos e domesticação de plantas e animais. Metais ao fogo, tudo de novo com mais vigor e o surgimento de grandes civilizações. Escravistas, feitas de seres meio-homem e meio-bicho, com diferentes pesos na distribuição dos direitos, messianismo e subjugação. Assim, tão lentamente como surgem, vão-se embora impérios e personagens. E rotas comerciais fechadas mostram a já indispensável interdependência das relações. Homens ao mar por necessidade, novas terras e inesperado reencontro de matrizes humanas acontece. Segue a domesticação de minerais fortes e máquinas e ilusões passam a borbulhar. Feudos, mercantilismo, corrida para colonização de novas paisagens e criação de novos impérios. Logo, repetido desgaste e reforço ao pensamento reflexivo para novas elaborações de homem e sociedade. Inquietação geral, o instinto sobrepujando a razão e as grandes destruições. Quase todos perdem, mas sobra ...

Recipiente móvel

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Só existe um oceano. Sem despencar para o espaço circula ele balançante montanhas que lhe vencem pela altura. Sua avidez e obstinação encontra limites apenas temporários, pois do material do qual é feito todo o resto é derivado. E o contorno das montanhas aos poucos e lentamente vai se deixando vencer. Ao ceder dos próprios pedaços ao oceano, a montanha impõe mudanças aos animais costeiros de superfície, aqueles que já desativaram seus filtros marinhos. No lento evoluir do conjunto, muito além de filtros de oxigênio, as mudanças alcançaram a primazia da inteligência adaptativa quase completa. Constrói-se pontes, muralhas de contenção e derrubam-se propositalmente pedaços de montanhas no mar. Desafia-se a dança das águas ao mesmo tempo em que se faz novo exercício de adaptação. Ainda assim, o oceano é um só. Sua força está em seu volume e em sua intempestividade. Também no fato de que seu ritual contínuo também é o da adequação: toma a forma de seu recipiente e se espraia por suas bo...

Déjà-vu

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Muitas são as pegadas do homem no tempo da história. Em nosso lugar crescemos rodeados por conjunto delas e nos acostumamos rápido com isso, pois calamos os sentidos para os depoimentos do passado. Mas, a hibernação sensória se quebra quando nos distanciamos do ponto de origem, onde a zona de conforto dos olhos se esvai sem deixar vestígios. É quando o desenho do horizonte se apresenta diferente que ficamos suscetíveis à interpretação do que nos cerca. Ali lançamo-nos a passear entre a energia do momento e os registros de memória, e muitas vezes caímos no lugar comum dos que se sentem pequenos frente ao desconhecido. Costumo me perguntar, nestas horas, se o inquestionável impacto é por estar vendo algo novo de fato, ou revendo algo velho e absurdamente próximo pela cumplicidade de outrora. Como as certezas não se dizem sempre necessárias, deixo as energias e impressões fazerem novos registros de memória enquanto, motivado, continuo caminhando em meu transe lúcido.

Olhos no ontem

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A sedentariedade do homem criou as cidades. Da imposição gradual de sua vontade ao ambiente restaram dominadas rotineiramente as espécies destinadas ao alimento. E o nomadismo anterior foi substituído pela concentração de muitos indivíduos num mesmo lugar. As cidades surgiram, assim, para além da força de entrepostos e rotas comerciais, com o fim de atender a maior densidade criada pela fartura alimentar e o aumento do percentual reprodutivo. Nem mesmo a mortalidade decorrente do convívio contínuo com os próprios dejetos mudou o curso da história: o homem não mais voltaria a ser nômade. Entendido o fator contaminante dos resíduos, as cidades se fortaleceram como manifestações aparentes das culturas dos povos e de suas riquezas; passaram a receber reformas estruturais com vistas à eliminação de problemas e à construção de paisagens agradáveis aos olhos. Belas cidades do passado foram símbolos de ostentação e poder e, sobretudo, denotaram a cosmovisão de seus reis, eclesiastas e mandatár...

Nuvem alada

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Os pássaros são seres que impressionam. Como qualquer outro animal tem um lugar de origem e um itinerário para a busca do alimento de todo dia. Entretanto, comprometido seu habitat podem voar para longe, muito longe, migrar para lugares distantes e desconhecidos. A fome humana por espaços e áreas livres diminui continuamente a densidade de árvores e matas silvestres. Então pássaros não comem delas e de igual forma não ajudam a semeá-las. Perdemos todos. Mas, eles voam. Passam a buscar áreas onde o alimento ainda existe. Com o tempo se adaptam, passam a se reproduzir e a viver em seu novo lugar, até que os espaços sejam novamente tomados. Fico pensando nos animais que não possuem esse poder de deslocamento, no irreversível processo de antropomorfização dos ambientes e na abismal perda de diversidade do planeta. Tremendo processo de transformação se desencadeia em nosso tempo. E, sem volta. Resta a nós humanos a analogia destes seres maravilhosos: quando chegar nossa vez de mudarmos de...